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Perda de olfato pode ser sinal precoce de Alzheimer: saiba quando investigar

  • Foto do escritor: Fabio Sanches
    Fabio Sanches
  • há 3 dias
  • 3 min de leitura
Foto: Pixabay
Foto: Pixabay

Mudanças no cheiro nem sempre são resfriado. Entenda causas comuns, quando acender o alerta e como buscar diagnóstico cedo para proteger a memória e a qualidade de vida.


As alterações no olfato costumam ser vistas como um problema passageiro e de pouca relevância clínica. Em geral, são atribuídas a gripes, alergias ou, mais recentemente, à Covid-19. No entanto, evidências científicas acumuladas nas últimas décadas mostram que, em certos contextos, mudanças sutis na percepção de cheiros podem ser um sinal precoce de doenças neurológicas, incluindo o Alzheimer.


Reconhecer quando a perda do olfato é um achado benigno e quando merece investigação médica é essencial para o diagnóstico precoce, o acompanhamento adequado e a preservação da qualidade de vida.


O olfato como marcador neurológico

O sistema olfatório tem uma característica singular entre os sentidos: suas vias se conectam diretamente a regiões do cérebro ligadas à memória, às emoções e ao comportamento, como o bulbo olfatório, o sistema límbico e o córtex entorrinal. Diferentemente da visão ou da audição, os estímulos do olfato não passam primeiro pelo tálamo, alcançando rapidamente estruturas profundas do cérebro.


Essas regiões estão entre as primeiras a sofrer alterações estruturais e funcionais no processo neurodegenerativo do Alzheimer. Por isso, estudos mostram que déficits na identificação, discriminação e no reconhecimento de odores podem surgir anos antes dos sintomas cognitivos clássicos, funcionando como um marcador funcional precoce.


Pesquisas recentes indicam que testes simples de identificação de odores, combinados a avaliações cognitivas breves, podem ajudar a identificar pessoas com maior risco de declínio cognitivo, ampliando as possibilidades de triagem em ambientes clínicos e na atenção primária.


Nem tudo é covid: causas comuns da perda de olfato

Apesar da atenção dada à covid-19, a maioria das alterações do olfato tem causas não neurológicas. Entre as mais comuns estão a rinite alérgica, a rinossinusite crônica, diversas infecções virais, tabagismo, uso de certos medicamentos, exposição a substâncias irritantes e traumatismos cranianos.


Nesses casos, a perda do olfato costuma vir acompanhada de sintomas nasais ou respiratórios e tende a melhorar com tratamento específico. Diferenciar corretamente causas locais de causas neurológicas é essencial para evitar alarmismo e atrasos no diagnóstico.


Quando o sintoma deve acender um sinal de alerta

O sinal de alerta surge quando a alteração do olfato é progressiva, persistente e não se explica por doenças nasais evidentes. O risco é maior quando o sintoma aparece em pessoas com mais de 60 anos ou se associa a queixas cognitivas sutis, como lapsos de memória, dificuldade de concentração ou mudanças de comportamento.


Nesses cenários, a alteração olfatória deve ser interpretada como parte de um quadro clínico mais amplo, e não como um achado isolado.


Diagnóstico precoce e acompanhamento

A abordagem inicial costuma incluir avaliação otorrinolaringológica, com o objetivo de excluir causas inflamatórias ou estruturais nasais. Na ausência de explicação local, ou diante de sinais neurológicos associados, a investigação deve prosseguir com avaliação neurológica e neuropsicológica.


O conceito atual de diagnóstico do Alzheimer evoluiu para um modelo baseado em biomarcadores, reconhecendo que o processo patológico começa muito antes da manifestação clínica evidente. Nesse contexto, o olfato pode atuar como um sinal sentinela acessível, orientando a necessidade de acompanhamento mais próximo.


A identificação precoce permite um melhor planejamento de cuidados, controle de fatores de risco modificáveis, orientação adequada de pacientes e familiares e preservação da autonomia e da segurança.


Um sintoma pequeno, um impacto grande

A perda do olfato afeta não apenas o prazer alimentar e social, mas também a segurança no dia a dia, ao reduzir a percepção de fumaça, vazamento de gás e alimentos estragados. Em certos contextos, pode ser um sinal silencioso de que o cérebro está em processo de mudança.


Reconhecer esse sintoma com atenção, equilíbrio e base científica contribui para uma abordagem mais preventiva, humana e orientada ao futuro da medicina.


José Carlos Rodrigues Junior – CRM 106.636 / RQE 29137 – Médico neurocirurgião


Foto: Jovem Pan

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